Parlamentares escondem emendas para evitar cobrança de eleitores

Parlamentares escondem emendas para evitar cobrança de eleitores
Foto: redir.folha.com.br

Deputados e senadores brasileiros estão adotando uma estratégia inédita: esconder que destinaram recursos públicos para obras em suas bases eleitorais.

A mudança rompe com décadas de comportamento político. Tradicionalmente, parlamentares faziam questão de inaugurar hospitais, quadras e estradas financiadas com emendas. Era a forma de transformar investimento em votos.

Agora, o movimento é inverso. Políticos preferem o anonimato ao crédito público.

Por que a mudança?

A nova opacidade tem razão clara: evitar cobrança. Quando o eleitor não sabe quem destinou o dinheiro, não pode exigir resultados nem reclamar de atrasos.

A estratégia protege o parlamentar de dois riscos:

  • Ser responsabilizado por obras inacabadas ou superfaturadas
  • Criar expectativa de entregas futuras que pode não conseguir cumprir

Em tempos de orçamento apertado e investigações frequentes sobre desvios, a invisibilidade virou escudo.

O paradoxo eleitoral

A ciência política sempre explicou a distribuição de emendas pela lógica do reconhecimento. O político investe onde tem votos e colhe dividendos eleitorais da visibilidade.

Mas o cálculo mudou. Com redes sociais e fiscalização digital, associar-se a uma obra pode gerar mais problemas que benefícios.

Um hospital com falta de médicos vira manchete negativa. Uma quadra rachada depois de seis meses gera memes. O custo político da exposição aumentou.

Consequências para a democracia

A opacidade dificulta o controle social. Sem saber quem destinou recursos, o eleitor perde a capacidade de punir ou premiar nas urnas.

A transparência era imperfeita, mas permitia alguma prestação de contas. O parlamentar que inaugurava obra assumia responsabilidade pública.

No modelo atual, o dinheiro público circula sem rosto. As emendas acontecem, mas os autores desaparecem.

É a política distributiva sem a contrapartida democrática da responsabilização.